Asses. CDL – Há quanto tempo reside em Alta Floresta e de onde veio?
Vilmar Donizete Pagnoncelli – Estou em Alta Floresta desde o ano de 1989, ou seja, já há 20 anos. Antes trabalhava numa loja de confecções em Rondonópolis, onde fiquei por onze anos como funcionário. Na época, ouvia falar muito em Alta Floresta, mesmo porque minha esposa tinha um tio que morava aqui e trabalhava com avião servindo aos garimpos. Ele que nos convidou pra vir pra cá, sugerindo que abríssemos uma loja e assim fizemos. A primeira loja se chamava Centro Norte e funcionava numa espécie de sociedade, isso em 1990. Depois desfizemos a sociedade e abri a Caleche.
CDL – Você é mato-grossense?
VDP – Não. Sou paranaense, nasci em Nova Londrina, morei quatro anos no Rio Grande do Sul onde tinha alguns parentes, fui para Mato Grosso do Sul, em Viena, depois é que comecei a trabalhar na Centauro, loja de confecções em Rondonópolis.
CDL – Neste período que mora em Alta Floresta, o que destaca como piores fases que o Município viveu?
VDP – Pra mim, a pior fase até hoje foi o fim do garimpo de forma abrupta em consequência do chamado Plano Collor que acabou de modo impactante com a atividade garimpeira na região. Foi um baque muito grande pra Alta Floresta, quando, de repente, houve uma desvalorização do ouro de uma hora pra outra, sem aviso prévio e sem alternativas imediatas que pudessem minimizar os problemas econômicos gerados no Município. Todos os segmentos ligados aos garimpos faliram e levou todo o comércio a dificuldades extremas. No meu caso foi ainda pior porque no meio de tudo isso estava nos preparativos finais para inaugurar a loja Caleche. Apesar disso, enfrentamos esse desafio e começamos a trabalhar com muita determinação, pois, acima de tudo, acreditava em Alta Floresta e na superação daquele momento. Outro período difícil para a economia local e regional aconteceu em 2005 com o final do ciclo da exploração da madeira.
CDL – E atualmente, quais os principais desafios do Município?
VDP – Eu acho que Alta Floresta ainda precisa encontrar sua verdadeira vocação econômica. Nós temos um pouco de pecuária, um pouco de agricultura e um pouco de turismo, mas não existe um formato econômico bem definido. É necessário investir num rumo mais confiável e duradouro para a economia do Município. Se existe o turismo, ele tem que ser fortalecido de modo a contribuir mais com resultados econômicos mais robustos; se temos a pecuária, temos que tirar o maior proveito dela trazendo, além dos frigoríficos, indústrias que possam agregar valores nesse setor produtivo. Na verdade, temos muito pouco de indústrias e escassez na geração de emprego. Com isso, nossa economia fica bastante instável.
CDL – O que considera de mais positivo em Alta Floresta?
VDP – A liderança do Município numa região que é bastante extensa. Temos um grande aeroporto e é realmente um lugar que tem potencialidades favoráveis pra ser um atrativo para novas empresas, novos investimentos e para o mercado externo. Temos também energia elétrica interligada ao sistema nacional que possibilita uma dinâmica de desenvolvimento para Alta Floresta, pois é mais um ponto positivo e essencial. Somos também um polo educacional que atende muitos municípios e mais investimentos neste setor vai ajudar muito nossa cidade.
CDL – Já pensou em entrar para a política oficial?
VDP – Eu vejo que não tenho perfil pra isso. Além disso, tenho minhas empresas pra cuidar. Acho que a Caleche ainda depende muito de mim e sinto que não é tempo de desvincular-me dela pra me dedicar à política que, pra se fazer um bom trabalho, exige uma dedicação total. Mas não quer dizer que não participo da política social, gerando emprego e auxiliando, dentro do possível, em ações que contribuem com a coletividade. Enfim, ser um político não é minha pretensão, não.
CDL – E a classe política de Alta Floresta tem desempenhado bem a sua função?
VDP – Vejo a classe política com um certo receio. Percebo que não há lideranças mais aglutinadoras em torno dos reais interesses de Alta Floresta e região. A classe política é muito dividida e não se consegue um consenso nas questões fundamentais em prol do desenvolvimento e bem-estar de toda a população e não temos líderes políticos com despojamento e eficiência para reunir e aproveitar melhor o potencial humano que temos aqui em se tratando de pensamentos e idéias. Falta união da classe política. Os grupos são muito controversos e não conseguem agir em conjunto na busca de soluções pra resolver problemas da sociedade como um todo. Quanto à Administração Municipal atual acredito muito nela e que muita coisa está sendo feito e bem, dentro das possibilidades, mas precisamos avançar mais, dar maiores passos e consolidar Alta Floresta como polo/referência pra toda região e pra Mato Grosso em todos os aspectos.
CDL – Na sua visão, quais são as perspectivas de futuro pra Alta Floresta e região?
VDP – Sou um apaixonado por Alta Floresta porque sempre a vejo como um lugar muito bom pra se viver, pra educar os filhos e conviver com as pessoas. Volto a dizer que se houver uma maior unidade política pensando com seriedade e honestidade no futuro do Município e que se defina com maior clareza nossa vocação econômica, Alta Floresta pode vir a ser uma grande cidade com enorme potencial. Se em nossa economia não existe mais o ouro nem a madeira, qual é o nosso “filão” atual? É preciso descobri-lo e trabalhar para potencializá-lo.
CDL – Qual sua opinião sobre a construção da hidrelétrica a ser iniciada em breve no rio Teles Pires?
VDP – Isso é muito positivo. Vai trazer aquilo que estamos mais precisando, ou seja, empregos. Acredito que nos próximos 4 ou 5 anos, em consequência dessas obras na região, vamos ter uma economia mais fomentada e aquecida, em função da quantidade de pessoas que estarão trabalhando, dos investimentos que virão e das melhorias em infraestrutura.
CDL – E sobre a hidrovia Teles Pires/Juruena/Tapajós, o sonho acabou?
VDP – Acho que não acabou, mas está um pouco esquecido. Vejo falar muito em BR 163, mas a hidrovia será importante pra nossa região, por isso esse sonho não pode morrer. Pra isso, é necessário que ao construir a hidrelétrica seja preparado também o caminho para a futura hidrovia.
CDL – A organização social de Alta Floresta é satisfatória?
VDP – Vejo com muito bons olhos a organização social de Alta Floresta, suas entidades, clubes de serviço e todo o trabalho que fazem. Alta Floresta é uma cidade que é muito carinhosa com tudo isso, muito afetuosa e essas instituições sociais, formadas por pessoas bem intencionadas da comunidade, são pontos fortes de Alta Floresta.
CDL – Como você considera a atuação da CDL Alta Floresta?
VDP – Ela está sempre antenada com o que acontece com todos os segmentos do comércio, buscando sempre atuar em prol dos lojistas/comerciantes, mas acho que todos os associados têm que contribuir mais com participações nas ações da CDL, dar sugestões e cooperar para que a gestão da CDL Alta Floresta seja cada vez melhor.
CDL – Como surgiu a Caleche Magazine?
VDP – A Caleche nasceu de um sonho meu e da Clarice, minha esposa. Quando trabalhávamos em lojas como funcionários, sempre pensávamos em ter uma loja um dia. Sonhava com uma loja que fosse bonita, que fosse moderna, que pudesse ser referência em vestuários e calçados e que também atendesse bem os clientes. Pra concretizar esse sonho escolhemos Alta Floresta. Chegamos aqui em 1989 e em 1991 inauguramos nossa primeira loja, a Caleche Magazine, na Rua B. Era uma pequena loja com 56 m², mas a gente acreditava muito que tudo ia dar certo, apesar de, como já disse anteriormente, a cidade estava vivendo momentos difíceis com o fim dos garimpos. Em seguida, conseguimos passar para um espaço de 120 m² e fomos ampliando aos poucos, crescendo e, em 1997, inauguramos também a Caleche Calçados onde funcionava a Franca Calçados. Em 1999, inauguramos a Caleche Magazine onde estamos até hoje, na Av. Ludovico da Riva Neto, 3082. É uma loja com 500 m², moderna, totalmente climatizada e ampliamos o leque de nossos fornecedores. Foi um desafio muito grande, principalmente considerando todas as severas crises que o Município passou, mas quando a gente acredita no que faz, as coisas acabam dando certo e os resultados aparecem. E estamos aí, com uma loja que consideramos bonita e com projetos de mais ampliações ainda neste ano. Em 2005, implantamos uma loja no vizinho município de Carlinda, que está indo também muito bem, seguindo os mesmos padrões da Caleche de Alta Floresta e já temos, no total das 3 lojas, 55 funcionários. Neste ano de 2011 temos bons motivos para comemorações juntamente com nossos colaboradores, clientes e população em geral, pois estamos completando 20 anos de Caleche Magazine. Vamos lançar o nosso cartão Credicard Caleche, queremos fazer um grande desfile de moda e muita coisa boa vamos apresentar neste ano para a sociedade.
CDL – Que significa a palavra Caleche?
VDP – Quando fomos abrir a loja ficamos por um tempo pesquisando nomes, ouvindo sugestões, lendo, até que encontramos esta palavra e gostamos. Achamos que ficaria bem como nome de nossa loja. A palavra em si é o nome dado a um tipo de carruagem urbana que existia para transportar pessoas. Tanto é que nossa logomarca é uma carruagem estilizada. Gosto muito deste nome.
CDL – Ser comerciante/lojista em Alta Floresta é muito difícil?
VDP – Não digo que é muito difícil, mas é um grande desafio, principalmente pela carga tributária a que somos submetidos. A maior carga tributária do país é a de Mato Grosso, com uma política de ICMS que dificulta demasiadamente a administração de um estabelecimento comercial e cerceou nossas possibilidades de crescimento e, consequentemente, poder gerar mais emprego.
CDL – Mais algumas considerações?
VDP – Eu quero externar aqui a minha alegria de ser um cidadão alta-florestense, pois já estou aqui a mais de duas décadas e assim me sinto. Quando fico alguns dias fora daqui, confesso que sinto saudade de Alta Floresta. Tudo que tenho investi aqui porque acredito no potencial da região, tanto é que temos projetos de ampliação de nossas lojas e também de investimentos noutros ramos de negócio. De coração, quero agradecer todos os clientes, os amigos, familiares, colaboradores e fornecedores por estes vinte anos que a Caleche Magazine está completando. Olhar pra trás e ver o percurso que fizemos é motivo de muita alegria, gratidão e de dizer que valeu a pena.