Quarta-Feira, 08 de Fevereiro de 2012
Entrevista
Segunda-Feira, 09 de Agosto de 2010, 15h41
Oliveira Ferreira Barbosa
Agostinho Bizinoto
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Asses. CDL – Senhor Oliveira, como e quando se deu sua vinda para Alta Floresta?
Oliveira Ferreira Barbosa – Abri uma casa comercial aqui em julho de 1979, ou seja, fiz a abertura da empresa que começou a funcionar a partir de abril de 1980, mas ainda não morava aqui. Ficava um período aqui e um período no Paraná, meu estado de origem. Um dos meus irmãos é que mais tomava conta dos negócios desse comércio. Nessa época eu era ainda solteiro. Me casei em 1981 e somente em janeiro de 1982 é que me mudei definitivamente para Alta Floresta.

CDL – O que mais o impressionou ao chegar neste lugar?
OFB – Na verdade, acabei permanecendo em Alta Floresta pelo movimento que o garimpo gerava naquela época. Tem aqueles que acham que o garimpo prejudicou Alta Floresta, mas eu discordo, pois deu um grande impulso econômico pra região, mesmo porque a lavoura não estava dando muito certo, como se esperava, devido vários fatores, sendo que o principal deles eu atribuo aos governos civis que não se alinhavam com o governo militar. Pra muitos, tudo que os militares faziam não estava certo e eu já penso o contrário. Nossa região deve muito a eles, pois estavam abrindo novas fronteiras e novas oportunidades até mesmo pra resolver questões sociais que existiam no país; inclusive, foi naquele momento de ocupação que surgiu o “Integrar para não entregar”, pensando também em assegurar a soberania nacional sobre a Amazônia, no nosso caso, ocupando a amazônia mato-grossense. Uma das maneiras utilizadas nesse processo foi dar apoio às colonizadoras particulares para promoverem a ocupação desta região. Não vejo nisso um problema, e, além do que já falei, era uma ação governamental para resolver também o “sufoco” social e da própria agricultura que o sul, principalmente o norte do Paraná, estava vivendo na ocasião.

CDL  Já trabalhava como comerciante no Paraná?
OFB – Já tinha duas lojas no Paraná no ramo de caça e pesca, mas como eu comecei meio tarde com este tipo de comércio lá, esta atividade já estava praticamente acabando, bem mais fraca, isso no começo dos anos de 1970 quando comecei. Nos últimos anos dessa década então já não compensava mais e aqui surgia como uma boa opção, pois era uma região nova, de mata e, para o comércio de caça e pesca, seria um bom negócio. A colonização de Umuarama que se iniciou por volta de 1955, entrou numa certa decadência devido o grande êxodo rural que acontecia, as lavouras de café enfrentavam problemas, a pecuária se expandiu e muitos pioneiros, principalmente do norte do Paraná, começaram a buscar uma região nova. Foi quando se deu a grande migração para o Mato Grosso e outros estados do norte do país. Com isso, grande parte de meus clientes também começaram a se mudar. Minha primeira intenção era de ir para Rondônia porque em 1978 vim até Sinop e nem tive coragem de chegar até aqui porque não gostei, mesmo porque amigos que vieram para a região de Sinop naquela época, estavam muito decepcionados. Em 1979, quando decidi sair definitivamente do Paraná, vim com alguns amigos até Cuiabá, os quais queriam conhecer esta região, menos eu. Eu pensava mesmo era em ir pra Rondônia, porque aqui eu achei que já conhecia, principalmente Sinop que, na época, estava muito desanimada. Isso em 1978. Tanto é que quando chegamos em Cuiabá, 1979, eu propus para os companheiros que estavam comigo, que eles viessem com meu carro pra cá e eu seguiria de avião para Rondônia, visto que pra lá não dava pra ir de carro. As estradas eram muito precárias. Não aceitaram minha proposta, então resolvi trazê-los até Alta Floresta. Ao chegar aqui, vi que as coisas estavam muito mudadas devido a descoberta do ouro na região. Como já tinha a loja de caça e pesca, voltei ao Paraná e me preparei pra vir me estabelecer em Alta Floresta. Ampliei os negócios para comercializar também materiais e equipamentos de garimpo e tudo deu muito certo. Quando a garimpagem acabou em 1990, eu tinha ainda um grande estoque de motores e outros equipamentos de garimpo, mas consegui ainda vender tudo para outros municípios.

CDL – Então o garimpo acabou sendo uma solução pro município e região?
OFB – Sim, porque muitos incentivos para a agricultura, pecuária e para outros setores que o governo militar dava, o governo civil tirou. Eu vejo assim. E tem outro fator importante: os pioneiros daqui, que vieram quase todos do norte do Paraná, e que plantaram café e mesmo o cacau com o incentivo da CEPLAC, não tiveram sucesso em suas lavouras. As terras da região de Sinop não são boas para lavouras e as daqui também não são muito diferentes, além do clima que não ajuda nas práticas agrícolas. E tem mais, com a tecnologia que existe hoje, o próprio agricultor já não é como os de antigamente, ou seja, ele não vai se sujeitar a trabalhar neste calor que faz aqui, de maneira meramente manual.

CDL – Depois do garimpo veio a exploração de madeira...
OFB – O ciclo do ouro terminou em 1990. Depois, até 2000, a economia regional ficou praticamente parada. Aí se começou, como alternativas econômicas, o extrativismo vegetal – a madeira – e investimentos na pecuária. Em 2005, veio um castigo do governo, que novamente parou com tudo, com uma legislação e fiscalização rigorosas e proibições repentinas de todas as espécies. Atualmente, o que realmente existe em nossa região é a pecuária e que vem também sofrendo bastante. A gente vê aí frigoríficos fechando, devendo para pecuaristas, além das leis ambientais que têm dificultado muito essa atividade, apesar de estarmos numa região muito boa para pecuária.

CDL – E como fica a situação dos empresários e comerciantes frente a tudo isso?
OFB – Toda vez que um município não vai bem em sua economia ou perde sua capacidade em seus setores de produção, reflete no comércio e noutras atividades urbanas. O próprio poder público perde em arrecadação de tributos, aumenta o desemprego e por aí vai... Acredito que com o asfaltamento da Cuiabá/Santarém, a agricultura vai melhorar um pouco e dará uma força na economia da região.

CDL – O que o Sr. diz sobre o fundador de Alta Floresta, Ariosto da Riva?
OFB – Foi um homem de fundamental importância para Alta Floresta, um grande empresário, de uma sensibilidade humana de se admirar. Tanto é que eu nunca ouvi falar que ele pressionava as pessoas para efetuarem os pagamentos junto à colonizadora e procurava ser amigo de todos. Da minha parte, não tenho nada que eu possa falar mal do Sr. Ariosto da Riva. Muito pelo contrário, acho que Alta Floresta deve muito a esse homem que soube conduzir bem os destinos do município nos anos de sua implantação.

CDL – Na sua opinião, o que atrapalha um desenvolvimento mais dinâmico do Município?
OFB – Eu acho que há excessos por parte da política ambiental e do próprio Ministério do Trabalho com relação ao Meio Ambiente, à agricultura e à pecuária. O governo deixou proliferar uma grande quantidade de ONGs que praticamente ditam as regras na Amazônia. Veja bem, os produtos tecnológicos e a maioria das grandes indústrias no país são multinacionais. O que temos de realmente nosso é a produção de carne e uma agricultura que precisa ser bem mais fortalecida, e são os dois setores mais pressionados no Brasil. Na Amazônia então, nem se fala. É um absurdo o que fazem com os fazendeiros e pecuaristas. Confesso que fico sem entender porque isso acontece.

CDL – Alta Floresta tem sido bem administrada ou atendida a contento pela classe política?
OFB – Não. Eu acho que Alta Floresta sempre foi muito castigada. Por exemplo, até hoje quem esteve como chefe do executivo que, pra mim, merece respeito, é a Maria Izaura, e a equipe da Prefeitura Municipal que mais tem procurado acertar é a dela. Pode haver falhas, mas ninguém é perfeito e nem vai agradar todo mundo. Pra mim, ela foi a melhor até hoje, e tenho certeza que as pessoas sérias desta cidade têm a mesma opinião minha. Agora, eu acho que ninguém devia se candidatar se não tiver a chamada “ficha limpa”. Às vezes nos dizem que se julgarmos que o candidato não é bom, não é honesto, não tem boas intenções na política ou é prejudicial pra população, basta não votar nele. Mas a maioria do povo sabe realmente o que se passou ou passa neste sentido? Eu acho que não. Isso deveria ser levado mais a sério e ser resolvido no Judiciário. Pra mim, o candidato tem que provar que é uma pessoa idônea.

CDL – Como o Sr. vê a CDL Alta Floresta hoje?
OFB – Acho que a CDL Alta Floresta teve sorte de ter muitos diretores bastante empenhados desde sua fundação. Pode ter ocorrido algumas falhas, mas, no geral, o saldo é positivo e, com relação à atual diretoria, eu considero que a entidade está em boas mãos.

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