Domingo, 20 de Maio de 2012
Entrevista
Quinta-Feira, 28 de Outubro de 2010, 16h50
Carlos Roberto Lisboa
Assessoria de Comunicação/CDL AF - Agostinho Bizinoto
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Assessoria CDL – Como ficou sabendo de Alta Floresta, quando veio e por quê?
Carlos Roberto Lisboa – Fiquei sabendo de Alta Floresta através de um tio, Júlio Lisboa, que mora atualmente na gleba Triângulo, perto da balsa. Quando ele aqui esteve, em 1979, para conhecer Alta Floresta, eu ainda era bastante jovem, 17 anos, e quando ele retornou para buscar a mudança, disse pra mim e pra minha família que lugar de futuro era Alta Floresta. Em 1981, ano que decidi sair da minha cidade – Comur, distrito de Planaltina/PR –, após ter feito um curso técnico no SENAI, fui para São Paulo, mas lá não me adaptei. Então me lembrei da conversa do meu tio a respeito de Alta Floresta e, no final de março do mesmo ano, resolvi vir pra cá. Em 1º de abril/1981 já comecei a trabalhar na Agropecuária Mogno como torneiro mecânico.
 
CDL – Como era Alta Floresta quando aqui chegou?
CRL – Eu cheguei num período difícil do ano naquela época. Final de março, muita chuva, dificuldade de transporte de Cuiabá pra cá – 800km de terra, energia elétrica bastante precária gerada por motores a diesel. Pra complicar ainda mais, não tinha emprego. Tanto é que eu tive que ir pra fazenda porque não conseguia trabalho na cidade. Vivia-se todas as dificuldades peculiares de uma região nova onde tudo estava começando.
 
CDL – Quais os maiores problemas que o Município teve que enfrentar no período que aqui reside, ou seja, desde 1981?
CRL – O primeiro problema que teve que ser enfrentado foi o da falta de energia elétrica mais confiável. A luta pelo linhão, inclusive participei desse movimento, que teve uma atuação determinante de vários segmentos sociais, encabeçada pelo Lions Clube. Outro problema que persiste até hoje é a definição de atividades econômicas que sejam duradouras para a região, que gere emprego e renda na cidade. Tivemos o garimpo, passamos pela exploração da madeira e, atualmente, temos a pecuária como motor de economia mais forte, mas um município não pode depender apenas de uma atividade econômica. Eu vejo que o grande desafio é Alta Floresta encontrar outras alternativas econômicas que possam ampliar a capacidade de produzir. Porém, vejo também, no momento, alguns sinais de esperança neste sentido. Acho que a indústria está se movimentando para uma perpetuação no setor da madeira, muitos estão se organizando para plantar, e ainda temos a indústria frigorífica que se prepara para agregar valores no processamento da carne e não somente exportá-la in natura, laticínios que estão num processo de expansão e outros setores que estão investindo para gerarem mais opções e alternativas na área econômica. Acho que o caminho é esse, apesar da morosidade em seus resultados, principalmente quando depende da classe política. Esperamos que a partir do ano que vem, com esse novo quadro político que teremos, exista uma preocupação maior em determinar, com o Zoneamento Socioeconômico Ecológico sendo efetivamente definido e com o novo código florestal e legislação mais clara sobre as questões ambientais, o município possa reunir todas as capacidades pensantes e de ação não somente na área política como também na área científica, pois temos aqui a UNEMAT que pode contribuir muito neste processo, criando oportunidades no mercado de trabalho principalmente para os jovens.
 
CDL – Mais alguns desafios que devem ser enfrentados atualmente, na sua opinião?
CRL – Na verdade, nosso grande desafio é vencermos a ignorância, não no sentido pejorativo, mas as pessoas terem uma consciência mais amadurecida de liberdade, no sentido de serem livres para fazerem suas escolhas, livres para opinarem, ou seja, que as pessoas tenham uma visão real das coisas, pois percebo que a grande maioria faz simplesmente o que os outros falam sem buscar um conhecimento mais verdadeiro dos fatos, não somente na área política como também no conjunto da organização social em todos os setores. Eu acho que a população de modo geral precisa se envolver mais nas decisões comuns a todos e a classe política ser mais humilde, ouvir mais. Hoje nós temos vários instrumentos que favorecem isso, mas, infelizmente, os conselhos que aí estão formados têm dificuldade de conseguir voluntários com vontade de contribuir no processo coletivo, uma vez que a função destes conselhos é serem portas de acesso à participação da comunidade até mesmo nas decisões dos investimentos públicos em todas as áreas de benefícios para o bem-comum como saúde, educação, infraestrutura etc. Tem conselhos para todos os setores, mas, a meu ver, a sociedade ainda não tem clareza da importância de se engajar nesses conselhos e influenciar naquilo que realmente interessa a toda população. Enfim, há uma dificuldade muito grande de encontrar pessoas dispostas e com conhecimento para atuarem nos conselhos.
 
CDL – O que o CODAM tem representado para Alta Floresta e região?
CRL – O CODAM – Conselho do Desenvolvimento da Amazônia é uma ferramenta importante pra toda região, mesmo porque dele participam pessoas de várias entidades e de algumas instituições públicas. Seu principal objetivo é discutir as alternativas de desenvolvimento regional e auxiliar no apontamento de prioridades para a classe política e poderes públicas, visando a aceleração de investimentos e a contribuição nos destinos regionais. Porém, na minha opinião, ainda está aquém de suas finalidades. Acho que os resultados das discussões no CODAM poderiam ser mais produtivos, mas, infelizmente, por questões circunstanciais e até mesmo limitações de conselheiros sua atuação ainda é um pouco tímida. Agora, inegavelmente, é um conselho fundamental para Alta Floresta e região. Prova disso, foi a atuação do CODAM nas discussões e na construção do Zoneamento Socioeconômico e Ecológico da região. O CODAM foi atrás, foi pra Cuiabá, brigou, discutiu e conseguiu amenizar uma série de situações que, se o CODAM não tivesse se envolvido, tinha ficado como estava e muito ruim pra região. Então, na minha visão, tem contribuído pra melhorar bastante coisa. Porém, o CODAM não pode parar somente na discussão do Zoneamento Socioeconômico Ecológico, mas acho que a partir de agora, a nova diretoria juntamente com poderes públicos locais e da região, venha a ampliar suas discussões e atuações em prol do desenvolvimento e da estabilidade econômica tão necessária pra todos nós.
 
CDL – Você é um dos fundadores do grupo denominado Guardiões da Cidadania. Quando este grupo foi criado em Alta Floresta e quais seus principais objetivos?
CRL – Este grupo nasceu em 2000, após um seminário ocorrido em 1999. Guardiões da Cidadania não é uma idéia original de Alta Floresta. É um grupo baseado numa experiência no Município de Bebedouros/SP com esta mesma denominação. O objetivo maior dos Guardiões da Cidadania é, antes de tudo, trabalhar a conscientização da comunidade priorizando a juventude e tem também a finalidade de acompanhar os poderes Legislativo e Executivo. Desde a sua criação, os Guardiões da Cidadania vem fazendo este trabalho dentro de suas possibilidades. Quanto ao acompanhamento das sessões da Câmara de Vereadores, conseguiu-se desenvolver um trabalho bem feito no período de 2000 a 2003, época em que as sessões eram realizadas à noite. Tínhamos um grupo permanente de acompanhamento sistemático das sessões, mas, depois, com a mudança de horário das sessões que passaram a acontecer no período da manhã, este trabalho foi prejudicado porque para o trabalhador é praticamente impossível marcar presença com assiduidade em todas as sessões por serem durante o dia. Não vou questionar as razões dessa mudança. Deve ter motivações políticas pra isso, mas é certo que limitou a participação dos Guardiões da Cidadania e de outras pessoas interessadas em presenciarem as sessões. Os dois principais momentos de atividades sociais dos Guardiões da Cidadania acontecem em abril e setembro de cada ano, realizando a Semana da Cidadania e o Grito dos Excluídos, respectivamente.
 
CDL – Na sua visão, como tem sido a trajetória da política oficial em nosso Município?
CRL – Lamento dizer que, na minha visão, deixa a desejar. Embora eu não tenha vocação para participar da política partidária, apesar de já ter participado mas me desfiliei do partido que estava em 1996. Fiz opção pra estar em movimentos sociais, conselhos como no CODAM e nos Guardiões da Cidadania. Os apelos do século XXI são muitos maiores do que a gente observa que, na prática, os políticos estão aquém do desejado. Exemplo disso, são os vereadores que perdem muito tempo em discussões meramente pessoais do que no debate de temas importantes para a sociedade que representam politicamente. Penso que nossa classe política local tem que evoluir mais, no sentido de deixar certas picuinhas de lado e ajudar a encontrar soluções que venham a melhorar a vida das pessoas, da sociedade como um todo. Muitas coisas que poderiam ser resolvidas mais rapidamente em prol da coletividade ficam se arrastando por questões partidárias ou outros interesses alheios aos interesses da sociedade, ou seja, a população sempre fica em segundo plano. Sei que muitos podem não gostar de minha posição neste sentido, mas pelo que tenho visto é assim que eu penso.
 
CDL – O que acha da organização social do Município?
CRL – É até constrangedor a gente falar, mas a classe política não satisfatória que digo é reflexo da própria sociedade. Se tivéssemos uma organização social mais consciente, mais envolvida em seu processo de cidadania, com certeza teríamos políticos mais evoluídos e comprometidos com a população. Tem muita gente com boa vontade, querendo participar e fazer acontecer, mas, infelizmente, quase sempre fica na boa vontade. Se prestarmos atenção, concluímos que são poucos os que se dispõem a participar dos conselhos, a discutir os temas de interesses sociais, a serem voluntários em ações para o bem-comum. Falta gente para um engajamento social mais maduro frente aos desafios que temos para serem enfrentados. Enfim, acaba que poucas pessoas se envolvem com um monte de coisas e participam de várias entidades, enquanto que muitos ficam na letargia. Isso leva muitas vezes a não possibilitar que esses poucos que se empenham em afazeres sociais façam um trabalho melhor, porque têm que fragmentar demais o seu tempo, a sua disponibilidade.
 
CDL – Acredita no progresso de Alta Floresta?
CRL – Muito. Sou muito confiante. Acabei de chegar de uma viagem que fiz para conhecer Santarém e Itaituba e fiquei extremamente feliz ao perceber que estamos no mínimo 20 anos à frente, apesar de tudo que tenho comentado que precisamos melhorar. Acho que Alta Floresta está numa região rica, de terra fértil e tem um povo aqui com capacidade de prosperar, tanto é que estou fazendo novos investimentos aqui por acreditar no desenvolvimento de Alta Floresta. Temos aí as nossas faculdades e o maior capital que uma região, uma nação, um país pode ter, é o capital humano, e vejo que estamos caminhando nessa direção.
 
CDL – O que considera que mais atrapalha um desenvolvimento mais dinâmico nesta região?
CRL – Infelizmente, um dos fatores dessa morosidade é termos uma classe política muito desunida. Nós vemos aí grupos políticos brigando entre si e não conseguem sentar para traçarem metas e criarem estratégias para projetos comuns. Acho que passando o processo eleitoral, tem que haver um mínimo de bom senso e cada eleito mostrar a que veio. Unir forças para fazer o que é melhor pra região.
 
CDL – Na sua opinião, a CDL Alta Floresta tem cumprido sua missão satisfatoriamente?
CRL – Eu uso muito pouco a CDL, porém o que tenho visto, presenciado e acompanhado, a CDL Alta Floresta tem evoluído bastante e avançou muito tecnologicamente. Tenho ouvido declarações, inclusive de pessoal de fora, dizendo que a CDL Alta Floresta é um exemplo pra região e até mesmo para Mato Grosso.
 
CDL – Você é proprietário da empresa Lisboa Tratores, que está em fase de expansão. Como funciona esta empresa hoje?
CRL – A Lisboa Tratores nasceu de uma necessidade, em 1986, quando fiquei desempregado. Eu tinha, portanto, dois caminhos: ia embora pra outra cidade à procura de emprego ou começava a trabalhar por conta própria. Felizmente deu certo pra iniciar a empresa e hoje montamos uma filial defronte ao cemitério, na perimetral, com o nome de Lisboa Usinagem, para atender um cliente específico que é o da indústria. Começamos a funcionar em maio e graças a Deus está dando certo, caminhando como a gente planejou. A Lisboa Usinagem tem uma administração própria. Eu não fico lá permanentemente, e estão atendendo muito bem em consertos e fabricação de peças, enquanto que a Lisboa Tratores continua atendendo como oficina e manutenção de tratores. O que fizemos foi uma separação de serviços. Os clientes da área da indústria e comércio que precisam recuperar ou fabricar alguma peça se dirigem à Lisboa Usinagem e os proprietários de tratores se dirigem à Lisboa Tratores. A tendência é crescermos e gerar mais empregos.
 
CDL – Mais algumas considerações?
CRL – Penso que temos que acreditar em Alta Floresta. Eu, particularmente, sempre falo pras pessoas que temos que contribuirmos o máximo que pudermos para a coletividade. Dentro das minhas limitações tanto nos movimentos de Igreja, nos Guardiões da Cidadania e na sociedade tenho procurado fazer a minha parte. Não posso deixar de citar a importância da minha família nesse processo todo. Sou feliz em Alta Floresta porque tudo que eu tenho conquistei aqui. Espero que, principalmente a partir do ano que vem, a classe política faça uma reflexão e dê respostas mais rápidas para a sociedade, porque é isso que ela espera.
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